Enquadramento histórico
No Noroeste peninsular, o mundo anterior à fundação de Bracara Augusta inscreve-se no universo castrejo, marcado por comunidades organizadas em povoados fortificados e por uma forte relação com o território. Os Bracari foram um dos grupos historicamente identificáveis desse espaço, associado ao território que mais tarde terá em Braga o seu centro urbano romano.
Em 137 a. C., com a campanha de Décimo Júnio Bruto, os Bracari surgem nas fontes antigas ligadas ao avanço romano para norte. Este confronto constitui um momento decisivo para pensar a relação entre as populações deste território e a presença romana e o processo de contacto, resistência e transformação que antecedeu a fundação urbana.
A própria designação Bracara Augusta articula estes dois planos: Bracara é geralmente entendida como remetendo para o nome dos Bracari ou para o território a eles associado, enquanto Augusta assinala a fundação romana da cidade em época de Augusto.
Cronologia essencial
218 a. C. – Roma entra na Península Ibérica no contexto da Segunda Guerra Púnica, iniciando uma presença que se desenvolverá de forma progressiva e desigual.
197 a. C. – A Hispânia é dividida em duas províncias romanas: Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior. Esta organização administrativa não significa o domínio efectivo de todo o território peninsular, permanecendo o Noroeste ainda longe de uma integração plena no sistema romano.
137 a. C. – Campanha de Décimo Júnio Bruto no Noroeste peninsular. É neste contexto que os Bracari surgem de forma expressiva nas fontes antigas associadas ao avanço romano, num episódio de confronto que marcou a memória da relação entre Roma e os povos deste território.
61 a. C. – Presença de Júlio César na Hispânia Ulterior, no quadro da consolidação da presença romana no Ocidente peninsular e da progressiva intensificação do contacto entre Roma e os territórios do Noroeste.
28 a. C. – Tempo ficcional de Câmalo, personagem do espectáculo de videomapping As origens de uma cidade, situado antes da fundação urbana de Bracara Augusta. A personagem permite articular memória familiar, território, confronto com Roma, cultos indígenas e transformação histórica.
Final do século I a. C. – Fundação de Bracara Augusta em contexto augustano, em data exacta ainda discutida, no quadro da reorganização romana do Noroeste hispânico.
A cidade romana não surge num território vazio, mas num espaço já habitado, estruturado e associado aos Bracari.
Nota sobre as fontes antigas
Apiano conserva uma memória expressiva do confronto entre Roma e os Bracari. Por se tratar de uma fonte antiga, posterior aos acontecimentos e exterior ao território, a passagem deve ser lida com prudência. Ainda assim, é relevante por mostrar a forma como os Bracari entraram na tradição escrita antiga. Apiano apresenta-os como comunidade guerreira e associa-lhes uma imagem de resistência, combate, bravura e afirmação colectiva, incluindo a referência à participação das mulheres no combate.


