Apresentação

Braga Romana celebra, em 2026, a sua XXII edição, reafirmando-se como um dos grandes momentos da vida da cidade de Braga. Ao longo de mais de duas décadas, consolidou-se como uma iniciativa enraizada na memória colectiva da cidade, centrada na revisitação de Bracara Augusta e marcada por uma forte dimensão festiva, que devolve o espaço público à história, à experiência partilhada e à mobilização da comunidade.
A edição de 2026 marca, neste percurso, uma deslocação do olhar para o tempo anterior à fundação urbana romana. Sob o mote Braga Romana antes de Augusto, centra-se no território dos Bracari, nas comunidades castrejas do Noroeste peninsular, nos seus modos de vida e no processo de contacto, confronto e transformação provocado pela aproximação de Roma. Esta deslocação não representa uma ruptura com a estrutura reconhecível da Braga Romana. Pelo contrário, permite aprofundá-la, colocando Bracara Augusta no quadro histórico mais amplo, que ajuda a compreender a sua emergência. A edição de 2026 mantém a dimensão festiva e participativa do evento e alguns dos seus rituais mais emblemáticos, mas introduz uma leitura mais atenta do território e das comunidades anteriores à emergência da cidade romana.
Inicia-se, assim, um ciclo de aprofundamento temático que procurará acompanhar, nos próximos anos, diferentes momentos da formação e transformação histórica da cidade de Braga, articulando programação pública, conhecimento histórico e mediação patrimonial.

Bracari antes de Bracara

A edição de 2026 volta-se para o tempo anterior à fundação de Bracara Augusta, centrando o olhar no território dos Bracari, nas comunidades que o habitavam, nos seus cultos, formas de organização e representações do mundo, sem perder de vista o impacto que a chegada dos romanos viria a produzir. Procura tornar visível um território já habitado, estruturado e simbolicamente denso antes da cidade romana, convocando o mundo brácaro e castrejo e o processo de confronto, contacto e transformação que antecedeu a fundação da cidade. Em 2026, procura-se olhar para o que antecede Bracara Augusta, não como um tempo vazio antes de Roma, mas como uma camada histórica própria, indispensável para compreender a emergência da cidade romana.

Enquadramento histórico

No Noroeste peninsular, o mundo anterior à fundação de Bracara Augusta inscreve-se no universo castrejo, marcado por comunidades organizadas em povoados fortificados e por uma forte relação com o território. Os Bracari foram um dos grupos historicamente identificáveis desse espaço, associado ao território que mais tarde terá em Braga o seu centro urbano romano.
Em 137 a. C., com a campanha de Décimo Júnio Bruto, os Bracari surgem nas fontes antigas ligadas ao avanço romano para norte. Este confronto constitui um momento decisivo para pensar a relação entre as populações deste território e a presença romana e o processo de contacto, resistência e transformação que antecedeu a fundação urbana.
A própria designação Bracara Augusta articula estes dois planos: Bracara é geralmente entendida como remetendo para o nome dos Bracari ou para o território a eles associado, enquanto Augusta assinala a fundação romana da cidade em época de Augusto.

Cronologia essencial

218 a. C. - Roma entra na Península Ibérica no contexto da Segunda Guerra Púnica, iniciando uma presença que se desenvolverá de forma progressiva e desigual.
197 a. C. - A Hispânia é dividida em duas províncias romanas: Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior. Esta organização administrativa não significa o domínio efectivo de todo o território peninsular, permanecendo o Noroeste ainda longe de uma integração plena no sistema romano.
137 a. C. - Campanha de Décimo Júnio Bruto no Noroeste peninsular. É neste contexto que os Bracari surgem de forma expressiva nas fontes antigas associadas ao avanço romano, num episódio de confronto que marcou a memória da relação entre Roma e os povos deste território.
61 a. C. - Presença de Júlio César na Hispânia Ulterior, no quadro da consolidação da presença romana no Ocidente peninsular e da progressiva intensificação do contacto entre Roma e os territórios do Noroeste.
28 a. C. - Tempo ficcional de Câmalo, personagem do espectáculo de videomapping As origens de uma cidade, situado antes da fundação urbana de Bracara Augusta. A personagem permite articular memória familiar, território, confronto com Roma, cultos indígenas e transformação histórica.
Final do século I a. C. - Fundação de Bracara Augusta em contexto augustano, em data exacta ainda discutida, no quadro da reorganização romana do Noroeste hispânico.

A cidade romana não surge num território vazio, mas num espaço já habitado, estruturado e associado aos Bracari.

Nota sobre as fontes antigas
Apiano conserva uma memória expressiva do confronto entre Roma e os Bracari. Por se tratar de uma fonte antiga, posterior aos acontecimentos e exterior ao território, a passagem deve ser lida com prudência. Ainda assim, é relevante por mostrar a forma como os Bracari entraram na tradição escrita antiga. Apiano apresenta-os como comunidade guerreira e associa-lhes uma imagem de resistência, combate, bravura e afirmação colectiva, incluindo a referência à participação das mulheres no combate.